segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Devolva minha aliança

 Pedro e Antonio foram criados na mesma rua, ao fim da qual havia um pequeno cemitério. Pequeno mesmo, assim como a cidade, que não passava de mil habitantes.
      Costumavam brincar por lá durante o dia, apesar das advertências das mães. Elas sabiam respeitar o campo santo e não gostavam nem um pouco de ver os meninos chegarem em casa carregando as flores que tinham surrupiado de um enterro.
      Assim que começaram a crescer um pouco mais, foi dando aquela vontade doida de experimentar coisas novas. E desafiar o medo é uma delas. Sentir até onde vai o próprio pavor, o coração disparado, a respiração acelerada até quase não caber mais nos pulmões, os olhos arregalados a ponto de pularem para fora, até da vontade de rir e gritar ao mesmo tempo.
     Aos poucos, começaram explorar o cemitério ao anoitecer. Pedro, que sempre foi o mais medroso, mal conseguia permanecer ali dois minutos e já queria voltar. Tirando uma lâmpada meio mortiça pendurada acima do portão, não havia nenhuma luz lá dentro.  Era preciso acostumar os olhos com a escuridão. Só então, conseguiam enxergar alguma coisa, mesmo assim apenas sombras. Mas o pior era o silencio absoluto, que fazia com que qualquer ruído parecesse imenso: Mosquito zumbindo, rato passando, sapo coaxando, vento uivando, folhas de arvores farfalhando.
     Um dia Antonio tropeçou numa cruz que ainda não tinha tido tempo de ficar bem agarrada no chão. O pé dele enganchou na madeira e ele caiu de bruços na terra fofa e úmida que tinha sido posta ali naquele dia. Pedro, tonto de pavor, tentou agarrar o amigo e, na escuridão acabou cravando as unhas, das mãos geladas em seu tornozelo. Antonio nem teve tempo de pensar, foi no reflexo. No que sentiu a mão nervosa tentando agarrar seu pé, desferiu um coice de arrancar até defunto da cova. Acertou direto no queixo de Pedro.
     Na escuridão e no susto, nenhum do dois sabiam direito o que estava acontecendo. Só que era preciso sair dali o mais rapidamente possível. Só ao chegar a rua, puderam compreender o que tinham de fato acontecido. O queixo aberto de Pedro não deixava nenhuma duvida com relação a assombração que tinha tentado agarrar o amigo.
     - Cara, você viu só? Meti o pé na cara na alma penada!
     - Alma penada coisa nenhuma, idiota. Você deu um coice na minha cara (retrucava Pedro).
     - Mas eu achava que era uma assombração, não achava? E se fosse tinha dado um coice nela do mesmo jeito.
     Pronto. Ninguém segurava mais o convencimento do cara. Agora, já acreditava (e contava para quem quisesse ouvir) que foi mesmo a mão do defunto enterrado naquele dia que tinha agarrado o seu pé.  Dias depois, estavam novamente os dois passando diante do cemitério, por volta das onze horas da manhã. Chegava um enterro novo.
     - vamos lá ver? (chamou  Antonio).
     Pedro concordou. Era uma noiva, ainda vestida de branco. Tinha morrido no dia do casamento, antes de começar a cerimônia. Resolveram acompanhar o féretro, só por curiosidade e porque a falecida era linda. O caixão já tinha baixado a sepultura, e o coveiro jogava terra por cima, quando um rapaz transtornado, provavelmente o noivo, deu um passo a frente e jogou a aliança dentro da cova. Pedro e Antonio ainda ficaram por ali um tempo, comentando o jeito das pessoas e fazendo piadas até que todos se foram. Também já se preparavam para partir quando Pedro viu uma coisa brilhando ao pé da cruz branca. Chegou mais perto e constatou: Era a aliança que tinha ficado ali, enterrada só pela metade. Mais tarde, já na escola, Antonio sugeriu:
     - Vamos voltar lá e pegar a aliança? Aquilo é ouro. Dá para vender.
     Mas Pedro, já cansado das exibições do amigo, teve outra idéia.
     - Hoje a noite, você vai buscar. (E complementou):
     - Sozinho?
     - Que é isso, cara, ta brincando?
     - Ué, você não é o herói que chutou a cara do defunto recém enterrado? Não é o destemidão do pedaço? Pois vai lá a noite. Vou avisar o pessoal. Dessa vez, vai ter platéia de verdade.
     Antonio ainda tentou escapar. Mas não teve jeito. Pedro já estava convocando a turma para o espetáculo. O menino não se atrasou. Afinal, agora não poderia voltar atrás. Alem de mentiroso, ia ser chamado de covarde. Passou pelo grupo com um olhar superior e mergulhou na escuridão, morto de medo. Não estava tão escuro como da outra vez. Era melhor para enxergar o caminho e chegar mais rapidamente a sepultura da noiva. E desta vez, Antonio estava sozinho.
    De onde estava, ainda podia ouvir ao longe as risadas dos companheiros. No entanto, com o vento e o silencio da noite, as vozes lhe chegavam destorcidas, como se viesse mesmo de outro mundo. Decidiu ser rápido e não desviar o pensamento do seu objetivo. Caminhou até a sepultura da noiva e logo viu o anel. Seria impossível não vê-la. Embora a luz da lua fosse pálida, a aliança brilhava como se refletisse o sol. Sem nem pensar direito no que fazer, estendeu a mão e pegou a jóia.
     O problema é que os meninos viam tudo de longe. E mariana, uma das meninas do grupo, resolveu fazer uma gracinha. Engrossou a voz e disse:
     - Antonio, me dá seu dedinho que vou por a aliança nele.
     Era uma piada. Mas, com a distancia, o silencio e o vento leve da noite, o som chegou destorcido no ouvido de Antonio. Parecia mesmo que a noiva defunta falava com ele. Todo o pavor que tinha controlado até aquele momento eclodiu como uma bomba de adrenalina. Só não berrou porque a garganta estava tão contraída que nenhum som sairia dali. Chegou ofegante ao portão, olhou para o grupo e estendeu na mão a comprovação de sua coragem. Mas a mão estava vazia. Na correria, tinha perdido a aliança. Mas nem se importava tanto assim só queria chegar em casa, dormir e esquecer. No começo não parecia tão difícil.  Sua mãe já dormia, mas tinha deixado um lanche sobre o fogão. Aos poucos, a sensação do leite morno descendo pela garganta, foi reduzindo a velocidade das batidas de seu coração e o sono foi chegando. Subitamente acordou no meio da noite, o quarto estava gelado, o que não era comum naquela época do ano. Não havia vento, a janela estava fechada. Ainda assim, a temperatura caía a cada minuto, a ponto de provocar calafrios.
     Então, veio o medo concentrado, como se todo o pavor das aventuras da noite chegasse de uma só vez. Sentiu-se observado e fechou os olhos com força. Sabia o que veria se os abrisse. Tinha certeza. Era ela, a noiva. Podia sentir sua presença, seus olhos vazios cravados nele, seu corpo imóvel de pé no quarto. E, desta vez, não era uma brincadeira da Mariana. Era a voz da morta mesmo que se fazia bem audível.
     - Devolva minha aliança.
     No minuto seguinte, o quarto já recuperava sua temperatura e tudo parecia tão completamente normal que Antonio chegou a acreditar que tinha sonhado. Na noite seguinte o mesmo aconteceu. Pedro e Antonio, voltaram ao cemitério, mas perderam o dia tentando encontrar a aliança. Parecia que ela havia sido tragada pela terra. A aparição tornou por mais quatro noites seguidas sempre igual. Finalmente, na sexta-feira a noite, a noiva disse:
     - Se você for até a minha cova amanhã a meia noite, e me pedir desculpas, prometo que não volto nunca mais. Mas vá sozinho.
     Na noite seguinte, cumpriu o prometido. Dirigiu-se sozinho ao cemitério, enfrentou a escuridão e o pavor e chegou ao local do encontro marcado. Realmente, pretendia pedir desculpas a noiva. Além disso, pensava em rezar também alguns pai nossos e ave marias, como garantia. Mas, assim que se aproximou da sepultura, sentiu o já conhecido ar frio gelar sua espinha. Não teve coragem de olhar pra trás. Sabia que ela estava ali e que não o deixaria fugir. Queria falar e não podia, queria gritar e não podia, queria respirar, mas até isso era impossível.
     Então, correu. Correu de olhos fechados para não ver o que sabia que estava ali. Correu tropeçando, enlouquecido, estendeu os braços para a frente como se pudesse agarrar uma salvação. Correu sabendo que nunca mais conseguiria dormir. Subitamente, sentiu que seu pé se prendia em alguma coisa e, no momento seguinte, seu rosto estava mergulhado em um monte de terra recém removida. O cheiro da morte entrou profundamente em suas narinas. Queria se levantar, mas o pavor o imobilizava. Dobrou os joelhos, tentando ficar de gatinhos, mas um puxão forte o derrubou novamente de bruços. Foi então que ouviu um baque surdo e sentiu uma dor terrível no dedo anular da mão esquerda. Em seguida percebeu que a criatura tinha partido.
     Levantou-se devagar e olhou para a mão esquerda. Seu dedo tinha sido decepado. Embrulhou a mão ensangüentada na camisa e foi andando lentamente pra casa. Pela primeira vez em muitos dias, sentiu que dormiria sem sobressaltos. Deixou que sua mãe cuidasse do ferimento e lhe desse um copo de leite morno. Foi para a cama e logo adormeceu, exausto. No meio da noite, no entanto, seus olhos se abriram como se alguém tivesse ordenando que fosse assim. A mulher  estava parada a sua frente. No entanto, agora, ela sorria. Um sorriso vazio, isolado do resto do seu corpo, que permanecia inexpressivo. E, desta vez, a mão esquerda não estava caída ao longo do corpo. Acenava para ele, como se desse um “tchauzinho” em câmera lenta. Antonio não podia deixar de notar: o dedo esquerdo da noiva ixibia uma reluzente aliança de ouro.
   Rosa Amanda Strausz

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